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quinta-feira, 15 de outubro de 2026

Em Bacabal, o mandato é longo, o microfone é curto, e só alguns vereadores escapam da regra

Nem todo vereador é ocioso, mas alguns já estão na cadeira há tanto tempo que a poltrona tem o formato deles

Pouco mais de um ano e nove meses depois da posse, o eleitor de Bacabal faz uma pergunta simples e constrangedora; o que fazem os vereadores da cidade? Antes que alguém se ofenda, convém dizer que a pergunta não vale para todos. Há exceções, e elas serão tratadas com o respeito que a maioria raramente merece. Para os demais, a resposta costuma vir em forma de silêncio, ou de um “deixa comigo” sem prazo de validade.

Os leitores descrevem um expediente semanal, uma sessão, meia dúzia de discursos que não resolvem um buraco de rua e, no fim do mês, um contracheque que muito bacabalense só vê em sonho. É o trabalho mais bem pago do mundo para quem não é cobrado por resultado.

Pelas leis, o vereador tem três obrigações, legislar, fiscalizar o poder executivo e acompanhar o orçamento. Em Bacabal, o que se via em boa parte dos gabinetes antigamente era uma quarta função, isso, antes do atual chefe do executivo assumir o comando da cidade. Essa quarta função era bem mais popular e jamais prevista em lei, a de “despachante” do favor. Uma consulta, uma cesta básica, um empurrãozinho em repartição. O vereador entregava o favor, o eleitor devolvia o voto, e ambos fingiam que isso era representação política. Não é, é escambo.

Nesse comércio, quem estava na situação aplaudia por reflexo, como plateia de auditório. Quem estava na oposição, criticava por esporte, com a convicção de quem torce por camisa, não pela cidade. No meio disso, os bairros, que deveriam ser assuntos, viravam cenários.

O mais curioso é a longevidade de alguns. Na Câmara de Bacabal há quem já ultrapassou duas décadas de mandato, o que, em tempo de serviço, dá para aposentar duas gerações de eleitores esperando a obra prometida. Outros nadam de braçadas rumo aos 16 anos em 2028, com a elegância de quem não pretende sair da piscina. Reeleição não é crime, e vinte anos de mandato podem ser sinal de trabalho reconhecido. Mas, quando o bairro continua com os mesmos problemas de duas décadas atrás, a pergunta é inevitável, o que, exatamente, foi reconhecido? Quem fica tanto tempo no cargo deveria ter uma lista de realizações tão longa quanto a folha de serviços. Quando não tem, o que se perpetua não é o legado, é a cadeira.

Há ainda os vereadores (as) que cumprem o ritual da presença. Vão às sessões, assinam a participação para não levar falta, não sobem à tribuna, permanecem calados do mesmo jeito que entraram e, terminada a sessão, vão para casa. É o mandato em modo avião: o corpo presente, a voz desligada e o salário em pleno funcionamento. Presença sem voz não é representação, é registro de ponto.

Por isso é preciso separar. Há vereador (a) que trabalha, propõe, vota com critério e aparece no bairro fora da campanha. São exceções, mas existem, e a desgraça é que, sem critério público de avaliação, o bom e o ocioso recebem o mesmo desprezo. O vereador (a) sério paga a conta do colega que só aquece a cadeira. A classe agradece a confusão, que é seu melhor escudo.

A Câmara sobrevive porque o eleitor esquece. Ele vota, volta para casa e só se lembra do mandato quando o pneu cai no buraco. O vereador faz o caminho inverso: some por três anos e reaparece no quarto, com o sorriso renovado e a promessa reciclada, pronto para inaugurar em palanque a obra que nunca inaugurou no canteiro.

Há um remédio, e ele é desagradável por ser trabalhoso, acompanhar a pauta, conferir quem propôs o quê, comparar o discurso com o voto e cobrar. O portal da transparência existe para isso. Só não funciona para quem não o abre.

Porque o mandato, em bacabal, é assim, o vereador só se incomoda com o eleitor quando o eleitor o incomoda. E, nesse quesito, quem já passa de vinte anos de casa, e outros que correm para isso, deveriam ser os primeiros a prestarem contas, e não os últimos.

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