Nem
todo vereador é ocioso, mas alguns já estão na cadeira há tanto tempo que a
poltrona tem o formato deles
Pouco
mais de um ano e nove meses depois da posse, o eleitor de Bacabal faz uma
pergunta simples e constrangedora; o que fazem os vereadores da cidade? Antes que
alguém se ofenda, convém dizer que a pergunta não vale para todos. Há exceções,
e elas serão tratadas com o respeito que a maioria raramente merece. Para os
demais, a resposta costuma vir em forma de silêncio, ou de um “deixa comigo”
sem prazo de validade.
Os
leitores descrevem um expediente semanal, uma sessão, meia dúzia de discursos
que não resolvem um buraco de rua e, no fim do mês, um contracheque que muito
bacabalense só vê em sonho. É o trabalho mais bem pago do mundo para quem não é
cobrado por resultado.
Pelas
leis, o vereador tem três obrigações, legislar, fiscalizar o poder executivo e
acompanhar o orçamento. Em Bacabal, o que se via em boa parte dos gabinetes antigamente
era uma quarta função, isso, antes do atual chefe do executivo assumir o
comando da cidade. Essa quarta função era bem mais popular e jamais prevista em
lei, a de “despachante” do favor. Uma
consulta, uma cesta básica, um empurrãozinho em repartição. O vereador
entregava o favor, o eleitor devolvia o voto, e ambos fingiam que isso era representação
política. Não é, é escambo.
Nesse
comércio, quem estava na situação aplaudia por reflexo, como plateia de auditório.
Quem estava na oposição, criticava por esporte, com a convicção de quem torce
por camisa, não pela cidade. No meio disso, os bairros, que deveriam ser
assuntos, viravam cenários.
O
mais curioso é a longevidade de alguns. Na Câmara de Bacabal há quem já
ultrapassou duas décadas de mandato, o que, em tempo de serviço, dá para
aposentar duas gerações de eleitores esperando a obra prometida. Outros nadam
de braçadas rumo aos 16 anos em 2028, com a elegância de quem não pretende sair
da piscina. Reeleição não é crime, e vinte anos de mandato podem ser sinal de
trabalho reconhecido. Mas, quando o bairro continua com os mesmos problemas de
duas décadas atrás, a pergunta é inevitável, o que, exatamente, foi
reconhecido? Quem fica tanto tempo no cargo deveria ter uma lista de realizações
tão longa quanto a folha de serviços. Quando não tem, o que se perpetua não é o
legado, é a cadeira.
Há
ainda os vereadores (as) que cumprem o ritual da presença. Vão às sessões,
assinam a participação para não levar falta, não sobem à tribuna, permanecem
calados do mesmo jeito que entraram e, terminada a sessão, vão para casa. É o
mandato em modo avião: o corpo presente, a voz desligada e o salário em pleno
funcionamento. Presença sem voz não é representação, é registro de ponto.
Por
isso é preciso separar. Há vereador (a) que trabalha, propõe, vota com critério
e aparece no bairro fora da campanha. São exceções, mas existem, e a desgraça é
que, sem critério público de avaliação, o bom e o ocioso recebem o mesmo
desprezo. O vereador (a) sério paga a conta do colega que só aquece a cadeira. A
classe agradece a confusão, que é seu melhor escudo.
A
Câmara sobrevive porque o eleitor esquece. Ele vota, volta para casa e só se
lembra do mandato quando o pneu cai no buraco. O vereador faz o caminho
inverso: some por três anos e reaparece no quarto, com o sorriso renovado e a
promessa reciclada, pronto para inaugurar em palanque a obra que nunca inaugurou
no canteiro.
Há
um remédio, e ele é desagradável por ser trabalhoso, acompanhar a pauta,
conferir quem propôs o quê, comparar o discurso com o voto e cobrar. O portal
da transparência existe para isso. Só não funciona para quem não o abre.
Porque
o mandato, em bacabal, é assim, o vereador só se incomoda com o eleitor quando
o eleitor o incomoda. E, nesse quesito, quem já passa de vinte anos de casa, e
outros que correm para isso, deveriam ser os primeiros a prestarem contas, e não os
últimos.

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